Tão dotado para o cómico como para o trágico, Mário Cláudio continua a surpreender-nos com as suas propostas literárias em mais um tríptico notável
Na primeira parte deste livro, encontraremos um escritor que ficou recentemente sem mãe, e que ora partilha com os leitores os seus passeios higiénicos na zona onde vive, oferecendo-nos um retrato sociológico impagável de um certo Porto, ora nos dá a conhecer as quezílias com o seu companheiro de anos, de quem parece diferir em quase tudo, excepto no afecto que os une. Na segunda parte, pela voz de um dos seus tratadores, acompanharemos a vida de Sofala, um leão capturado em Moçambique ainda jovem, que viajou nos anos trinta até à Invicta para ser orgulhosamente mostrado na Exposição Colonial Portuguesa, após o que foi esquecido numa jaula. Por fim, virá chamar-nos a figura do escritor António Nobre nos finais do século XIX, seja através da história da sua vida narrada por pena alheia, seja através da leitura do próprio diário, a que não escapam os constrangimentos das normas sociais da época, evidentemente castradoras das suas preferências sexuais. Tão dotado para o cómico como para o trágico, Mário Cláudio continua a surpreender-nos com as suas propostas literárias, bem como com a linguagem vibrante e rica com que nos brinda a cada nova obra.