Paulo M. Morais teve um ano especialmente horrível: perdeu o emprego, a mulher pediu-lhe o divórcio, teve de sair da casa onde sempre morara para se instalar numa parte de casa da avó por não poder pagar uma renda, ficou a viver longe da filha pequena. Na altura da mudança, sentia-se demasiado cansado para empacotar os seus pertences e carregar os caixotes de cá para lá e pensou que podia estar doente. No entanto, de todas as vezes que foi à médica com queixas de cansaço e dores terríveis de cabeça, ela disse-lhe simplesmente que era tudo da depressão. Ele acreditou. Uma noite, porém, sentiu-se tão mal que teve de ligar para o virem buscar de ambulância. E foi assim que descobriu, afinal, toda a verdade: tinha um linfoma, um cancro, e precisava de começar, quanto antes, a quimioterapia. Durante o ciclo de oito tratamentos, que fez completamente sozinho, começou a escrever este livro. É, de certa forma, um diário da doença, mas também uma reflexão absolutamente fantástica sobre a vida, o passado, a real importância das coisas e das pessoas, os remorsos pelo que não fizemos, o arrependimento pelo que podíamos ter feito de outro modo. E o medo de perder a vida. No fim, como se de um final feliz se tratasse, o tumor despareceu e, com ele, muitas partes erradas da vida do autor. Mais: encontrou o amor - e, curiosamente, de uma mulher que sofrera pouco antes a mesma provação: um cancro da mama. Há males que vêm por bem.